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Falta uma política de transportes em Portugal

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Falta uma política de transportes em Portugal

A reforma da fiscalidade verde, os incentivos ao abate e à compra de veículos eléctricos são medidas que, por si só, não contribuem para um sistema de mobilidade mais sustentável e integrado. Esta foi uma das principais conclusões da mesa redonda “Cidade sem Carros & Fiscalidade Verde”, uma iniciativa da Toyota que reuniu representantes da ACAP, da Quercus e elementos da comunicação social especializada no sector automóvel.

A maioria dos presentes concordou que é necessário continuar a apostar na inovação e na tecnologia como forma de tornar os automóveis mais amigos do ambiente, não obstante este ser um dos sectores que mais reduziu as emissões de CO2 ou gases com efeitos de estufa nos últimos anos. Mafalda Sousa, da Quercus, salientou que quando foram estipuladas metas de redução das emissões, duvidou-se que seria exequível mas os fabricantes fizeram-no e, actualmente, Portugal está entre os três países de União Europeia que melhor cumprem os limites estabelecidos, logo atrás da Holanda (país que tem uma taxa de penetração de veículos eléctricos de cinco por cento) e a par da Dinamarca.

Mas se o país avançou a esse nível, existem áreas em que é preciso agir. A idade média do parque automóvel nacional é de 12 anos, o que não contribui para a redução da carga ambiental negativa. António Cavaco, da ACAP, sugere mesmo que Portugal está abaixo na média na relação de número de veículos por cada mil habitantes, mas não deixa de contribuir com 12 por cento das emissões de CO2. Aliás, Mafalda Sousa refere mesmo que o sector é responsável “por 25 por cento das emissões de gases com efeito de estufa”.

Parece, então, paradoxal que, estando Portugal abaixo dos limites de emissões, o sector automóvel contribua tanto para a poluição do ar. Mas a explicação está na forma como os veículos são utilizados e estão integrados na sociedade. Se os congestionamentos de trânsito, por exemplo, fossem evitados, os níveis de poluição também seriam menores. Ou seja, não é o automóvel o principal causador das percentagens mencionadas. António Cavaco defende que é preciso repensar a organização das cidades, porque “não é o automóvel que é o inimigo, mas sim a forma como é integrado”.

A Quercus defende que o projecto da fiscalidade verde devia ter ido além e apenas beneficiar carros com emissões inferiores a 95 gCO2/km para além dos já enquadrados na lei. António Cavaco, por sua vez, é apologista de uma visão em que “o automóvel é uma solução de mobilidade” e “tem de ser encarado como um elemento gerador de valor e desenvolvimento”, não podendo ser visto apenas como fonte de receita fiscal. “O automóvel chegou a contribuir com 22 por cento de receitas fiscais sem qualquer objectivo”, sublinhou.

É por isso que na sala não se pôs em causa a necessidade de se taxar a utilização do automóvel mas defendeu-se a necessidade de se estabelecer uma política a pensar no futuro, que promova a renovação da frota para a tornar mais económica, eficiente e amiga do ambiente, e que integre o automóvel num sistema mais amplo, embora com um papel preponderante nessa mesma organização da mobilidade.

Toyota pensa em integração

Numa sessão bastante debatida, Sousa Campos, da Toyota, começou por mostrar qual é a visão do construtor japonês para o futuro das sociedades e a sua mobilidade. O fabricante já está a desenvolver projectos, nomeadamente na cidade francesa de Grenoble, em que o automóvel assume um papel complementar de um sistema mais amplo e integrado de transportes públicos. O futuro será diversificado, com mais soluções, nomeadamente ao nível dos combustíveis. Os eléctricos dominarão as curtas distâncias, os veículos a combustão interna para quem necessite de se deslocar em distâncias maiores e, quando a tecnologia estiver mais desenvolvida e estável, soluções como a célula de combustível também entram na equação. No fundo, o que a Toyota preconiza é uma complementariedade dos próprios veículos consoante as necessidades específicas.

Neste âmbito, a marca nipónica acredita no crescimento dos eléctricos no seguimento de uma tendência que regista, neste momento, a colocação no mercado de sete milhões de veículos do género. Isso deve-se a factores como o imposto sobre emissões de CO2, o preço dos combustíveis elevados, a maturação tecnológica, a alteração comportamental e questões ambientais, como a qualidade do ar.

Contudo, a nível europeu, essas estimativas não são tão optimistas. António Cavaco, da ACAP, apresentou números da ACEA, que prevê um crescimento lento do mercado dos eléctricos. “De 2020 a 2025 a taxa de penetração vai variar de dois a oito por cento”, adianta.

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