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Porque desapareceram os motores a 2 tempos?

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Porque desapareceram os motores a 2 tempos?

Famel Zundapp. Casal. SIS Sachs. Fundador. Maca. Yamaha( DT, e a irmã mais velha, a DTR). Honda NSR 125. Cagiva Mito 125. Gilera Typhon. Yahama BWS. Vespa 50. Estas eram algumas das motos que mais frequentemente se viam nas nossas estradas nos anos de 1990. Desde as agora na moda motos Made in Portugal, passando pelas incontornáveis DT e DTR, a fantástica Cagiva Mito ou as mais básicas “aceleras”, a porta de entrada para o mundo das duas rodas passava, quase, inevitavelmente por um modelo equipado com um motor a 2 tempos (e correspondente rasto de fumo azulado).

E se recuarmos mais alguns anos, com a família Yamaha RD, Suzuki RG ou a mais veterana Kawasaki H2, também entre as motos para crescidos os motores a 2 tempos eram populares. Hoje em dia, no entanto, são uma criatura em vias de extinção, porquê?

As animações abaixo mostram genericamente como funcionam o motor a 2 tempos e o mais comum motor a 4 tempos:

2 tempos

4 tempos

 

As principais vantagens do motor a 2 tempos são mais ou menos evidentes:
1 – No motor a 2 tempos há uma combustão por cada volta de cambota, no motor a 4 tempos ocorre uma combustão por cada duas voltas de cambota. Deste facto resulta que, para a mesma cilindrada, a uma dada rotação o motor a dois tempos terá aproximadamente o dobro da potência de um motor a quatro tempos. Ou posto de outra maneira, para a mesma potência o motor a 2 tempos pode ter metade da cilindrada
2 – O motor a 2 tempos tem muito menos partes móveis. Como é o movimento do pistão que controla o fluxo de gases que entram e saem da câmara de combustão, não são necessárias válvulas, nem veios de excêntricos ou correias de distribuição.

Juntando estes dois factores, temos um motor mais potente, simples, leve e potencialmente mais fiável (ou, pelo menos, com menos coisas para avariar). Mas tem de haver um senão. Que, na realidade, são dois…

Primeiro: como é visível na animação, há um período de tempo em que as janelas de admissão e de escape (dá-se o nome de janela às aberturas no cilindro por onde é admitida mistura de ar e combustível e expelido o gás de escape) estão abertas em simultâneo, pelo que algum do combustível vai sair directamente pelo escape sem queimar. Segundo: os componentes móveis não são lubrificados com um circuito de óleo independente, mas sim pelo próprio combustível, que para isso tem misturada uma pequena quantidade de óleo.

Estes dois factores resultam em que o motor a 2 tempos, tal como era tradicionalmente usado, emitia muito mais poluentes que o motor a 4 tempos. Com as restrições às emissões de poluentes a que os veículos modernos estão sujeitos, simplesmente não é possível homologar um motor a 2 tempos.

Mas será que o motor a 2 tempos morreu para sempre? Não. Simplesmente, está restrito a um conjunto de aplicações onde estes problemas não se põem:

– aplicações em que  o baixo peso e a simplicidade são determinantes, como seja em equipamentos portáteis (de que as moto-serras são um bom exemplo) e em a  poluição não é crítica
– aplicações que não são abrangidas por normas ambientais tão restritivas, como sejam veículos de competição ou motores fora de borda
– aplicações em a tecnologia permitiu reduzir as emissões para valores comparáveis aos motores a 4 tempos, como sejam os sistemas de propulsão de navios (neste caso, motores Diesel)

Se alguma vez voltaremos a ver um veículo de estrada, de 2 ou 4 rodas, com motor a 2 tempos não sei. Mas algumas notícias mais recentes como esta ou esta indicam que tal não é impossível.

Gonçalo Gonçalves
Coordenador do laboratório de veículos e propulsão do DEM-IST

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