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A ciência e a segurança rodoviária

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A ciência e a segurança rodoviária

Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 1,25 milhões de pessoas morrem, anualmente, em consequência de uma colisão rodoviária. Os utentes vulneráveis – peões, ciclistas e motociclistas – representam cerca de metade destas mortes. Entre 20 e 50 milhões de pessoas sofrem lesões, muitas ficando incapacitadas para o resto da vida. As colisões nas estradas mundiais são a principal causa de morte na faixa etária entre os 15 e os 29 anos.

São números impressionantes mas que não tiram o sono ao cidadão comum, até que uma das mortes seja um seu familiar, conhecido ou amigo, ou ele próprio. Para além dos custos sociais, estas mortes e lesões representam um custo financeiro estimado entre 3% e 5% do produto interno bruto de cada país, traduzindo-se em milhões e milhões da respetiva moeda.

road-to-safety-infographic-smithsOs principais fatores de risco são a velocidade praticada que aumenta não só a possibilidade de colisão mas de forma ainda mais significativa a gravidade das lesões; a condução sob o efeito do álcool, drogas e medicação, que diminui drasticamente a atenção dos condutores e a sua capacidade de reação; a não utilização de capacete pelos motociclistas, que poderia diminuir o risco de morte em cerca de 40%; a não utilização de cintos de segurança (a sua utilização diminui entre 40% e 50% o risco de morte para os ocupantes frontais e mais para os traseiros) e de sistemas de retenção para crianças (que se adequados e corretamente montados diminuem a probabilidade de morte cerca de 70%); a distração durante a condução também potencia o risco de colisão rodoviária, sendo atualmente a utilização de telemóveis e smartphones apontada como uma das distrações mais incapacitantes da competência para a condução.

Contudo, nas últimas décadas, a diminuição das mortes e feridos graves tem sido tremenda. Isto deve-se à pressão da sociedade e à criação de organismos como o NHTSA, em 1970, que mais tarde originou o NCAP. Na Europa, estamos mais familiarizados com o EuroNCAP, criado em 1997, e com os seus testes à segurança dos veículos, todos queremos um carro com cinco estrelas. As normas criadas e a divulgação dos resultados destes testes de segurança foram e são fundamentais para encorajar (e obrigar) os fabricantes a construir veículos mais seguros.

Assim, é a indústria automóvel a ter um papel fundamental no aumento da segurança rodoviária, no que diz respeito ao vértice veículo do trinómio veículo-via-condutor. O desenvolvimento da segurança passiva e ativa reflete a importância da ciência na segurança dos veículos, dado que o estudo, desenvolvimento e implementação de novas soluções só é possível com a entendimento da dinâmica dos vários intervenientes no ambiente rodoviário e a sua interação.

Surgiu assim o cinto de segurança, tão importante na diminuição das lesões dos ocupantes, os airbags, os sistemas de travagem e estabilidade e as zonas de deformação programada e a célula de segurança, mas também o sistema de iluminação, sinalização e os próprios espelhos dos veículos, os para-brisas laminados. Os sistemas pré-colisão, fazendo uso do GPS, de radares, lasers e de câmaras para detetar uma colisão iminente com outro veículo, motociclo, ciclista, peão ou mesmo um animal. Os sistemas de segurança mais recentes incluem a deteção de peões e ciclistas pelos veículos e a possível travagem automática de emergência e acionamento de airbags exteriores, sensores de ângulo morto e de mudança inadvertida de via de trânsito, alertas de velocidade e de fadiga do condutor, cruise control adaptativo e mesmo a comunicação entre veículos, a chamada de emergência automática (eCall) e a condução automática dos veículos, em piloto automático.

Os nossos veículos são hoje um conjunto incrível de tecnologia, muita desta relacionada com a segurança rodoviária o que me leva a terminar com uma questão: Daqui a quantos anos deixaremos de conduzir para sermos apenas conduzidos?

Ricardo Portal

Investigador de Acidentes – icollision

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